26/09/2025 às 23h59min - Atualizada em 26/09/2025 às 23h57min

O que há nas montanhas?

A busca pelo divino que habita em nós?

Criação por IA

Foram essas as perguntas que fiz antes da maior caminhada da minha vida: quase trinta dias pelas montanhas do Himalaia até chegar aos pés do Everest e, depois, a 5.600 metros no Kala Patthar, para ver o teto do mundo frente a frente e colher indícios de respostas. No caminho de ida, elas foram surgindo; na volta, tomaram forma de conceitos.

As montanhas simbolizam uma ascensão espiritual, seja por meio de um retiro contemplativo, de uma viagem interior ou de uma busca filosófica que una as duas intenções — como tão bem teorizou Nietzsche: “Nas montanhas da verdade, você nunca sobe em vão... ou hoje alcançará um ponto mais elevado, ou estará treinando suas forças para poder subir ainda mais alto amanhã.” E assim foi, passo a passo, em meio a uma imensa caminhada.

As montanhas são pontos de interseção entre o terreno e o celeste, ligando o humano ao divino. Funcionam como “morada dos deuses” e templos inatingíveis, guardando tesouros espirituais e experiências de iluminação para quem ousa escalá-las. Representam a transcendência em si mesma — convite ao esforço, à superação e à transformação pessoal — um caminho de prática, autodescoberta e realização do ser.

O Monte Olimpo, na região da Macedônia Central, perto do mar Egeu, é a montanha mais alta da Grécia, com 2.917 metros de altitude, e era considerado a morada dos doze deuses olímpicos — Zeus, Hera, Atena, Apolo, Poseidon, Dionísio, entre outros. Visto também como lugar sagrado e envolto em nuvens, permanecia inacessível aos mortais.

O artista, filósofo místico, escritor, arqueólogo e educador russo Nicholas Roerich enxergava o Himalaia de forma semelhante. Viveu com sua esposa, Helena, durante vinte anos no vale de Kullu, no norte da Índia, onde retratou em diversas telas o ambiente espiritual e enigmático daquela região, que se tornou tema dominante de sua obra.

“É verdade, montanhas em toda parte são montanhas, a água em toda parte é água, o céu em toda parte é céu, e os homens em toda parte são homens. Mas, ainda assim, se, sentado diante dos Alpes, você tentar imaginar os Himalaias, algo inexplicável, mas convincente, estará faltando” — sentenciou Nicholas Roerich sobre a qualidade transcendente e inescapável do Himalaia.

E é o que é: seja pela altura daqueles picos eternamente nevados, pela cadeia interminável de montanhas onde a vista se perde, pelos vales verdes e rios serpenteando pedras, pelas pontes suspensas por cabos de aço, pelos sherpas que ali vivem e transmitem a sua cultura e costumes seculares aos visitantes, pelos inúmeros templos budistas ao longo do trajeto, pelo céu, pelas nuvens, pelos deuses, por tudo e por nada... O mesmo Himalaia que permite a subida possibilita também o caminhar por nossos próprios infinitos.

As montanhas mais altas e supostamente inacessíveis seguem dentro de nós. O caminhar externo apenas revela o que já habitava em silêncio: o Olimpo que sonhamos, o Himalaia que nos desafia, a montanha interior que nos chama. No fim, cada passo dado entre pedras e neves é também um passo rumo ao divino que se esconde em nossa própria essência. É necessário subir tão distante para chegar em algo que estava tão perto.

Inverno de 2025 (verão no hemisfério norte)

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