O que leva alguém a abandonar um livro numa sarjeta? Quem faz isso é capaz de qualquer coisa! Ele ainda estava lá, vivo, íntegro, com todas as páginas amareladas pelo tempo — talvez pela chuva, pelo vento frio que sopra do Pacífico ou apenas pelo sereno das madrugadas e o sol dos dias ensolarados. O fato é que as páginas estavam amareladas e tremulavam como bandeiras de orações no Nepal.
Talvez estivesse mais feliz em uma sarjeta do que esquecido, ou até ignorado, em uma estante de madeira ou fria de metal. Pedi permissão e abri em uma página aleatória, e a resposta para os meus questionamentos veio de imediato: “jumping into books was just too dangerous”, em tradução livre: “começar a ler livros era muito perigoso”. Alguém que não suportou viver perigosamente e preferiu voltar para o seguro abrigo de um sofá cheirando a mofo, com uma televisão à frente, onde a vida passa em canais.
As sincronicidades do dia de hoje giram em torno dos livros, das frases, dos poetas e escritores... Eu estava finalizando o artigo para um cliente e buscava uma frase que arrematasse a temática sobre a humanização da medicina e os cuidados paliativos. Encontrei várias, mas todas relacionadas à ciência. Eu queria algo poético, que tocasse o coração das pessoas e que versasse, de certa forma, sobre o tema. Nessa busca, cheguei a: “as pessoas podem esquecer o que você disse ou fez, mas nunca esquecerão como as fez sentir”. Não poderia ser mais perfeita a frase da poetisa norte-americana Maya Angelou, e assim arrematei o artigo e encaminhei para aprovação.
Saí para caminhar um pouco pela cidade e visitar a biblioteca pública. Sempre que estou a passeio ou a trabalho em algum lugar, preciso estar entre livros: folhear, sentir o cheiro do papel, o silêncio do lugar que permite ouvir os cérebros borbulhando em conhecimento — adquirido ou apenas flutuando, como bolhas de sabão no ar dos sonhos que as palavras trazem. Entrei e logo perguntei onde ficavam os livros de poesia. O atendente me perguntou: “poesia geral ou norte-americana?” Respondi: “o que você mais gostar”, e ele me levou até a seção de poetas norte-americanos.
Passei os olhos por antologias, livros grandes e pequenos, mas não havia retirado nenhum da prateleira até me deparar com uns seis a oito livros de... Maya Angelou. Bem, ela, que horas antes eu mal sabia da existência e que descobri durante a pesquisa para o artigo. Saquei o menor dos livros, o mais judiado — provavelmente por ter sido o mais alugado e lido — e, como sempre faço, abri em uma página aleatória e li um poema.
The Lesson
I keep on dying again.
Veins collapse, opening like the
Small fists of sleeping
Children.
Memory of old tombs,
Rotting flesh and worms do
Not convince me against
The challenge. The years
And cold defeat live deep in
Lines along my face.
They dull my eyes, yet
I keep on dying,
Because I love to live.
Em tradução livre:
A Lição
Continuo morrendo de novo.
Veias colapsam, abrindo-se como
Pequenos punhos de
Crianças adormecidas.
A lembrança de velhos túmulos,
Carne apodrecida e vermes
Não me convencem contra
O desafio. Os anos
E a fria derrota vivem fundo nas
Linhas ao longo do meu rosto.
Eles apagam o brilho dos meus olhos, mas
Continuo morrendo,
Porque amo viver.
Haja limites para as sincronicidades, não? Assim como eu, o livro na sarjeta, Maya Angelou, que se foi mas ronda por aqui, e os pacientes em cuidados paliativos seguimos “morrendo porque amamos viver” e vamos vivendo “enquanto houver um vestígio dos quadros que eu fiz”, como poetizou Rubel em canção.
Inverno de 2025 (verão no hemisfério norte)