Após assassinar o rei Duncan, Macbeth olha para as mãos cobertas de sangue e diz: “É uma visão lamentável”. Em seguida, reflete: “Será que todo o vasto oceano de Netuno lavaria este sangue de minha mão? Não, minha mão antes tornaria todos os mares vermelhos, tingindo de sangue o que é verde”.
O horror de Macbeth diante do que suas próprias mãos executaram é uma das cenas mais emblemáticas deste clássico de William Shakespeare. O sangue é símbolo do crime, mas sobretudo da culpa. Macbeth desejava o poder, mas não previu o peso imediato do ato.
Nesse gesto extremo, encontrei um paralelo com as relações entre pais e filhos. Para que os filhos se tornem seres autônomos, precisam “matar” simbolicamente os pais — usurpar o trono interno para conduzir a própria vida. Esse processo, descrito por Jung como parte da individuação, é natural e necessário. Mas quando não é compreendido, o que resta é a culpa: um duelo diário, uma condenação invisível.
Nesse teatro da vida, encenamos ora Macbeth, ora Duncan. Somos Macbeth quando carregamos o peso de desejar a liberdade diante de nossos pais, e Duncan quando sentimos a dor de sermos “mortos” pelos filhos. A forma como subimos no palco e ocupamos esses papéis é o que dimensiona nossa experiência: a culpa no papel de Macbeth, a dor no de Duncan.
Mark Twain, no século 19, observou com ironia: “Quando eu tinha 14 anos, meu pai era tão ignorante que eu mal podia suportar tê-lo por perto. Mas quando cheguei aos 21, fiquei surpreso com o quanto ele havia aprendido em apenas sete anos”. O tempo nos ensina que tanto o fardo quanto o peso são ilusórios; fazem parte de uma travessia.
Os pais sempre carregarão o temor de se tornarem um peso, e os filhos sempre terão o desejo secreto de se livrar desse fardo. Com lucidez, é possível despir-se da roupa de culpado que enlouqueceu Macbeth e encontrar um tempo de delicadeza: para honrar nossos pais quando a finitude e a morte forem reais, e para preparar nossos filhos a viver o mesmo ciclo com paz e sentido de dever cumprido.
Ora Macbeth, ora Duncan — assim atravessamos a cena, até o fim do espetáculo.
Inverno de 2025 (verão no hemisfério norte)