Eu nunca assisti Breaking Bad, mas é como se tivesse visto, de tanto ouvir meu filho falar sobre o seriado que teve locações em Albuquerque, no Novo México. É lá que a trama se passa e foi para lá que fui, de passagem na travessia de costa a costa dos Estados Unidos.
A série acompanha a transformação de Walter White, um pacato professor de química do ensino médio, em um dos criminosos mais temidos do submundo do tráfico. Diagnosticado com câncer de pulmão e preocupado em deixar segurança financeira para sua família, ele se une ao ex-aluno problemático Jesse Pinkman para produzir e vender metanfetamina de altíssima pureza.
À medida que Walter mergulha cada vez mais fundo no mundo do crime, suas justificativas “nobres” dão lugar à ambição, ao orgulho e ao desejo de poder. Breaking Bad explora as consequências devastadoras de suas escolhas — para si mesmo, sua família e todos ao seu redor — em uma trama de tensão crescente e dilemas morais.
Walter White e Jesse Pinkman estão imortalizados em estátuas de bronze no centro de convenções da cidade — um presente do criador da série em parceria com a Sony — e foi para lá que fui a pedido do meu filho, para fotografá-las. Como estão dentro do local, só é possível visitá-las quando há evento, o que não acontecia quando cheguei. Insisti com o segurança que precisava apenas entrar e fazer uma foto. Ele relutou, mas acabou cedendo. Entrei, e o cara veio junto. Tirei a foto da estátua e, como ele estava apenas me monitorando, pedi: “Você poderia tirar uma foto minha com as estátuas?” Com uma cara de “até onde isso vai”, ele concordou e clicou.
Saí feliz da vida e comecei a caminhar pelo centro da cidade, onde fica o pavilhão de exposições. Me surpreendi com um local limpo, mas com muitos moradores de rua, pessoas estranhas e um clima de insegurança. No motel (concepção distinta do Brasil, hehehe) em que eu havia feito check-in, a sensação foi a mesma. Na recepção, um rapaz de origem indiana não chegou a ser rude, mas foi seco ao extremo, sem qualquer cortesia. Como era apenas uma parada para dormir, escolhi a opção mais barata da região. Péssima escolha. A hospedaria ficava atrás de um depósito de pneus usados e, quando cheguei, havia no estacionamento cerca de 10 a 12 pessoas consumindo drogas. Não parecia ser a metanfetamina de altíssima pureza de Walter White, mas algo barato, apenas para “dar momentos de felicidade” para quem vive dias duros.
Pesquisei opções de lazer e turismo nas poucas horas que tinha por lá, e os guias falavam de Old Town e de uma cervejaria artesanal. Fui até Old Town e, no final do dia, parecia uma cidade semi-fantasma: parte das lojas já estava fechada e os bares e restaurantes tinham pouco movimento. Decidi ir para a famosa Marble Brewery, experimentar as especialidades da casa. O ambiente estava relativamente cheio, com um DJ animado, e provavelmente era o lugar mais seguro em que me encontrava.
Depois, fui ler sobre a criminalidade da região e constatei — um pouco tarde — que o Novo México havia sido classificado como o estado mais perigoso dos EUA. Albuquerque, apesar de ter conseguido reduzir os casos de homicídios, assaltos à mão armada, roubos, vandalismo e furtos de veículos, ainda registrava a mais alta taxa do país em roubo de veículos, com todos os índices considerados elevados em relação à média nacional.
Eu, hospedado num motel de quinta categoria, com consumidores de drogas no estacionamento, atrás de um depósito de pneus usados, no estado mais violento e numa das cidades mais perigosas do país. Mas vi beleza no caos, como se tivesse me transportado para a trama de Breaking Bad. Eu era um agente da DEA, a agência antidrogas dos EUA, disfarçado de jornalista brasileiro escrevendo uma reportagem sobre turismo. E assim dormi, como se estivesse em um hotel cinco estrelas — mas não antes de passar uma toalha nos lençóis da cama, que não pareciam ter sido lavados desde os últimos hóspedes.
No dia seguinte, abri a janela e vi que meu carro ainda estava no estacionamento, sem ter entrado para as estatísticas da criminalidade de Albuquerque. Ufa! Levantei os olhos e imensos balões estavam enquadrados na minha moldura. A cidade também é conhecida pelos passeios de balão, graças ao lindo relevo da região — e não apenas pela fama de violenta. Sorri feliz: já podia deixar o papel de agente da DEA e reassumir o jornalismo, aliviado. Arrumei rapidamente minhas coisas, tomei um café e passei na recepção para deixar as chaves do quarto.
Uma mulher de origem indiana, provavelmente esposa do homem que me atendeu no dia anterior, abriu um imenso sorriso — com alguns dentes dourados — e disse: “Have a wonderful day.” Não poderia ter sido mais premonitório: a vida sorrindo para mim, e o dia transcorreu como um voo de balão. Ao chegar no destino seguinte, um novo recepcionista de origem indiana? Perguntei. Ele respondeu que era nepalês. O jovem Bishal era da cidade de Pokhara, a 200 quilômetros de Katmandu, de onde veio a inspiração para essa coluna “Viagens ao Infinito”.
Inverno de 2025 (verão no hemisfério norte)