04/08/2025 às 00h38min - Atualizada em 04/08/2025 às 00h36min

Basta estar vivo para ouvir estrelas

E no diálogo com as galáxias respostas para os questionamentos mais profundos

Zé Luchetti
Criação por IA

A frase "Quando a morte vier, que me encontre vivo" é uma paráfrase de uma ideia atribuída ao escritor Mário Quintana, conhecido por sua leveza e profundidade ao tratar da vida, do tempo e da morte. Mas, em minhas pesquisas, descobri que essa frase específica não é uma citação direta dele, embora ecoe o espírito de várias reflexões que escreveu.

São pensamentos que têm rondado minha cabeça nesta semana, em que comecei a escrever a nova coluna “Viagens ao Infinito”, onde dou ouvido ao diálogo entre os dois mundos que habitam em mim: o externo e o interno. E, nessa conversa, as sincronicidades, tão bem teorizadas pelo psiquiatra Carl Jung, no século passado — onde conexões por significados, e não por causas, ocorrem aos borbotões, como diriam os mais velhos — se manifestam com força, especialmente em momentos de crise, transformação ou tomada de consciência.

Era uma manhã quente de verão, no hemisfério norte, e eu havia voltado da minha caminhada pela baía. Abri o celular e havia um vídeo de um amigo com quem não trocava mensagens há quase dois anos: um clipe em ritmo de rap, com a letra de “Ouvir estrelas”, de autoria de Olavo Bilac. Tanta ligação que tenho com essa poesia... Quando meu pai morreu, eu era um jovem adulto, com menos de 20 anos. Já duvidava um pouco da existência divina, e foi um passo para me tornar ateu. Ainda assim, seguia rezando toda noite antes de dormir. Era um hábito do qual não conseguia me desvincular, por fazê-lo desde muito criança. Até que, um dia, comendo um hambúrguer, li no papel da lanchonete — onde o prato ficava apoiado — o tal poema do Bilac. Recortei, até hoje o tenho em minha agenda, e passei a lê-lo toda noite antes de dormir. Era um exercício para entender se a oração anterior tinha algum significado espiritual ou se era apenas um mantra que me acalmava. Bingo: tese comprovada. Num instante, virei um "tresloucado", ao “cair em tentação” e passei a “abrir janelas, pálido de espanto” e conversar com estrelas “toda a noite, enquanto a Via-Láctea cintila”.

O tempo passou e acabei subindo — ou descendo — degraus (depende do ponto de vista) no caminho da espiritualidade. Abandonei o ateísmo, por entender que ele era uma crença sustentada pela negação, e o agnosticismo passou a fazer mais sentido. Outro passo foi começar a frequentar o templo Soto Zen Busshinji e, depois das sessões de zazen, conversar com o monge para entender um pouco mais sobre o budismo. Certa vez, questionei:

“Mestre, eu posso ser um agnóstico budista, já que me identifico com a filosofia, mas não com a religião?” Sem titubear, ele sentenciou:
“Você pode ser o que quiser.” Pronto: agnóstico budista que ouve estrelas.

Voltando ao amigo que me enviou o poema do Bilac em ritmo de rap, perguntei o motivo de ter pensado em mim — já que poucos sabem dessa minha ligação com o poeta parnasiano, o maior representante do movimento no Brasil, em que a arte basta ser bela e bem feita. Ele respondeu: “A óbvia é porque sei que você gosta muito de poesia e se interessa por novidades. E eu, pessoalmente, adoro esse tipo de anacronismo, essa mistura entre o clássico e o contemporâneo. Achei que ficou sensacional em rap e quis dividir com você!”

Como eu tinha pedido para ele refletir e buscar a resposta no fundo da alma pelo fato de ter enviado o vídeo, ele completou:

“Falar com estrelas, eu entendo, é estar sensível às belezas inefáveis — coisas da existência que não são exatamente racionais ou teorizáveis.” Pois é... as sincronicidades de Jung, quando a psique e o mundo externo se alinham de modo simbólico... haja simbolismo em tudo isso, afinal: “só quem ama pode ter ouvido capaz de ouvir e entender estrelas.”

 

Inverno de 2025 (verão no hemisfério norte)

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