Noites de insônia são raras para mim, mas quando chegam são bem tumultuadas e, efetivamente, acumulam todas as demais bem dormidas — na linha de vigília ao defunto, sem direito a cochilos na cadeira do velório. Como não tenho vocação para ficar fritando na cama, pego um livro, começo a escrever ou saio vagando como um fantasma pelo apartamento. Depois de fazer tudo isso, abri a janela do quarto e decidi colocar a roupa de ginástica e ir ainda mais cedo para a academia. Mas um planeta paralisou o meu olhar.
Era de uma luz fixa — não brilhava — intensa, mas suave, bem perto do horizonte no firmamento, quase tocando a linha dos prédios. Havia pouca poluição, talvez tivesse chovido no dia anterior, não lembro. Mas não durou muito: aquela estrela linda, ou melhor, aquele planeta, sumiu — se escondendo atrás dos prédios ou dando vez ao sol, que chegaria alguns minutos depois.
Sentei para tomar meu café da manhã e recorri ao celular para saber qual era o planeta. Talvez Júpiter, Saturno, Vênus... Marte não era, afinal, não havia nada de vermelho naquela luz vinda do sem-fim. Surpresa total ao descobrir que era Mercúrio — justo ele, o mensageiro.
Mercúrio é o correio dos deuses na mitologia grega-romana (Hermes, para os gregos), porque simboliza velocidade, inteligência, comunicação e trânsito entre mundos — dos deuses, dos mortais e até das profundezas. Ele representa a ponte entre o divino e o humano, o que precisa ser dito, levado, pensado e trocado. E o DNA do rapaz é forte: filho de Zeus (Júpiter, não preciso escrever mais nada, né?) e Maia, uma ninfa — jovem e bela mulher associada à primavera, a mais linda das estações.
Que mensagem o tal rapaz de divina origem me trouxe que eu não consegui captar? Depois de torrar os miolos, veio uma luz. A minha guru (palavra originalmente vinda do sânscrito, que não tem gênero gramatical — aprendi mais essa) provavelmente teria a resposta. Não pensei um segundo sequer e enviei a mensagem, sendo quase tão rápido quanto o próprio Mercúrio. Para minha surpresa, ela estava acordada — mesmo sendo antes das 6 — e, de pronto, me respondeu: “Busque a resposta dentro da criança que existe em você”.
Como assim? “Busque a resposta...”? A dúvida eu já tinha! Esperava que viesse algo mais pragmático. Mas, para minha surpresa e ansiedade, na sequência veio outra mensagem dela — desta vez, imperativa: “Leia a postagem que o Paulo Saldiva (professor de patologia da USP e, para mim, “filósofo da vida nas horas vagas”) acaba de fazer”. Corri e li.
“Perdão pela singeleza da mensagem. Deu vontade de escrever, depois de uma ausência prolongada. No sonho veio clara a lembrança do menino que morava em mim, nos tempos em que eu era criança. A vida daquele menino (como a de todas as crianças) teve, com toda certeza, momentos de alegria, intervalados por tristezas. Foi a tristeza que teve por dever fazer o menino aprender, com gosto, que a alegria é precisamente o seu oposto.
Foi assim que o menino coletou alegrias no que lhe foi simples e trivial — em coisas pequenas da vida e da sua história — que foram em mim guardadas para sempre, como tatuagens na memória. Que bom que o menino, em sonhos, me voltou e deixou meu caminho aclarado.
Mais importante que olhar o passado é resgatar o menino que soube, desde criança, encontrar a alegria nas coisas de cada dia — e, com isso, manter viva a esperança.”
Tá. Ok. Fiquei na mesma. Mas comecei a refletir sobre o menino e a resgatar alguma “tatuagem na memória”. Não demorou muito para eu lembrar de uma tristeza: a viagem nunca feito pelas cidades históricas de Minas Gerais. Ainda adolescente, iria tirar a carteira de motorista meses depois. Comecei a planejar, com um amigo (outra sincronicidade, no momento em que revejo esse texto, ele acaba de mandar mensagem contando que um outro amigo em comum acaba de perder o pai), viajar de carro pela história do Brasil. Gravamos fitas cassete para a trilha sonora da “road trip” e desenhamos o roteiro. Seria em maio, logo depois do meu aniversário — com a carteira de motorista fresca e em mãos. Mas uma imposição hierárquica implodiu os planos.
O pai do amigo não deixou que ele viajasse — teria que trabalhar. Com medo de ir sozinho, chorei — porque nunca consegui engolir o choro — e não fui para Minas.
Agora tinha que ser, era maio novamente. Resgatei a criança/adolescente/jovem adulto que havia dentro de mim. Busquei o roteiro nas memórias, assim como a trilha sonora — não mais em fitas cassete, mas em uma playlist denominada “Minas, montanhas e cafezinho” — e, 13 dias, sempre o 13 (enigmático, sagrado e amaldiçoado), depois da mensagem decifrada, eu estava chegando em São João del Rei, mais precisamente na Igreja de São Francisco de Assis, aquele do desapego e liberdade da alma. Na sequência, serpenteando as montanhas... Tiradentes, Congonhas e os profetas de Aleijadinho, Ouro Preto, Mariana, Serra de São José e Tiradentes de novo, antes de voltar para casa.
A playlist começava com “Paula e Bebeto” (nome de amigo que perdi na semana passada, outra sincronicidade), afinal, “qualquer maneira de amor vale a pena”... qualquer maneira de amor pela vida vale amar — e assim decidi seguir pela estrada, após me reconciliar com a criança que vive em mim.
Inverno de 2025 (verão no hemisfério norte)
Fato originalmente ocorrido em 07 de maio de 2023
Num próximo texto, eu conto sobre a viagem e as canções mineiras que inspiraram cada quilômetro rodado e o casarão fantasma em Ouro Preto
Playlist: “Minas, montanhas e cafezinho” (https://open.spotify.com/playlist/2St43huQuu6oNC2JR7asc5?si=xA_vbjYWTKWSq-Mth0sbvQ&pi=fQ4EWNSYRt-8E)