21/07/2025 às 01h46min - Atualizada em 21/07/2025 às 01h44min

Castelo de cartas que chamamos de vida

Paulo Saldiva conta que passou a ‘desimportar-se’ de si mesmo após uma quase morte

O professor de Patologia da USP, Paulo Saldiva — um dos maiores estudiosos do país sobre os efeitos da poluição ambiental no corpo humano — passou por uma experiência de quase morte e contou como foi, em entrevista à BBC Brasil.

“Eu convivo com a morte todos os dias, e eu mesmo passei recentemente por uma experiência de quase-morte. Embora a minha situação fosse uma morte súbita, eu não vi luz, não vi nada, mas sabia que ia morrer. E veio uma sensação de conformidade, de paz”, relatou o professor.

Ele disse que era como se estivesse dando uma aula e fazendo o próprio atestado de óbito. “Vi meu fluxograma de morte: prótese, infecção, depois retirada da prótese, bacteremia, baixa pressão, que derrubou o castelo de cartas que a gente chama de vida. É um estado de hiperconsciência. Engraçado isso! Você não se perde em devaneios. Você simplesmente se torna extremamente objetivo diante do fato de que vai morrer”, explicou.

Agora, o professor passou a buscar mais do que um sentido no que está fazendo — um propósito de vida: “já que você não morreu... bom, o que eu vou fazer a partir daqui?”, questionou Paulo Saldiva, que concluiu:

“me reduzi em minha importância. Me ‘desimportei’ de mim mesmo. Todo professor universitário emite um pouco de energia ególica, que vem do ego. Que é inesgotável, renovável e insuportável (diz com ironia). É como se você tivesse tido uma avant-première de uma coisa que você não sabia... privilégio de saber como é que é antes. E isso te tira um pouco do medo da finitude.”

Curioso como o professor Saldiva — que só entrevistei uma única vez na vida, que foi junho passado, apesar de admirar tanto e por tanto tempo — permeia fatos da minha vida. Ele está nas sincronicidades de um momento essencial que eu havia relatado há poucos dias em uma crônica para este “Viagens ao infinito” e preparado para publicar na próxima coluna. Esse depoimento à BBC mudou o cronograma das publicações.

Escrito também, eu tinha, uma poesia sobre quase-morte, lá atrás, quando quase morri... Um escritor pode morrer de várias formas — e eu morri de uma delas, talvez a mais dolorida: aquela que é de morte matada, não de morte morrida, como quase foi a do professor.

E a morte do escritor virou poesia, com citação até de uma outra que já deve ter morrido um par de vezes...

“Assim como Adélia Prado

morri numa tarde de maio

e o meu velório

transcorreu por todo

final daquele outono.

Fui somente enterrado

no inverno, sei lá

porque esperaram tanto.

Levei algumas estações

para renascer, mas

a primavera sempre chega

e você que me matou

ainda olha sem acreditar

o meu caminho em

praias de um eterno verão.”

E o meu castelo de cartas, que desabou — assim como o do professor Paulo Saldiva —, por um capricho da vida, pode ser alicerçado novamente até o próximo vento, ou até que, deliberadamente, uma carta seja puxada por um desavisado qualquer.

E, assim como o patologista, passei a me “desimportar” de mim mesmo.

 

Inverno de 2025 (verão no hemisfério norte)

Leia Também »