O professor de Patologia da USP, Paulo Saldiva — um dos maiores estudiosos do país sobre os efeitos da poluição ambiental no corpo humano — passou por uma experiência de quase morte e contou como foi, em entrevista à BBC Brasil.
“Eu convivo com a morte todos os dias, e eu mesmo passei recentemente por uma experiência de quase-morte. Embora a minha situação fosse uma morte súbita, eu não vi luz, não vi nada, mas sabia que ia morrer. E veio uma sensação de conformidade, de paz”, relatou o professor.
Ele disse que era como se estivesse dando uma aula e fazendo o próprio atestado de óbito. “Vi meu fluxograma de morte: prótese, infecção, depois retirada da prótese, bacteremia, baixa pressão, que derrubou o castelo de cartas que a gente chama de vida. É um estado de hiperconsciência. Engraçado isso! Você não se perde em devaneios. Você simplesmente se torna extremamente objetivo diante do fato de que vai morrer”, explicou.
Agora, o professor passou a buscar mais do que um sentido no que está fazendo — um propósito de vida: “já que você não morreu... bom, o que eu vou fazer a partir daqui?”, questionou Paulo Saldiva, que concluiu:
“me reduzi em minha importância. Me ‘desimportei’ de mim mesmo. Todo professor universitário emite um pouco de energia ególica, que vem do ego. Que é inesgotável, renovável e insuportável (diz com ironia). É como se você tivesse tido uma avant-première de uma coisa que você não sabia... privilégio de saber como é que é antes. E isso te tira um pouco do medo da finitude.”
Curioso como o professor Saldiva — que só entrevistei uma única vez na vida, que foi junho passado, apesar de admirar tanto e por tanto tempo — permeia fatos da minha vida. Ele está nas sincronicidades de um momento essencial que eu havia relatado há poucos dias em uma crônica para este “Viagens ao infinito” e preparado para publicar na próxima coluna. Esse depoimento à BBC mudou o cronograma das publicações.
Escrito também, eu tinha, uma poesia sobre quase-morte, lá atrás, quando quase morri... Um escritor pode morrer de várias formas — e eu morri de uma delas, talvez a mais dolorida: aquela que é de morte matada, não de morte morrida, como quase foi a do professor.
E a morte do escritor virou poesia, com citação até de uma outra que já deve ter morrido um par de vezes...
“Assim como Adélia Prado
morri numa tarde de maio
e o meu velório
transcorreu por todo
final daquele outono.
Fui somente enterrado
no inverno, sei lá
porque esperaram tanto.
Levei algumas estações
para renascer, mas
a primavera sempre chega
e você que me matou
ainda olha sem acreditar
o meu caminho em
praias de um eterno verão.”
E o meu castelo de cartas, que desabou — assim como o do professor Paulo Saldiva —, por um capricho da vida, pode ser alicerçado novamente até o próximo vento, ou até que, deliberadamente, uma carta seja puxada por um desavisado qualquer.
E, assim como o patologista, passei a me “desimportar” de mim mesmo.
Inverno de 2025 (verão no hemisfério norte)