06/07/2025 às 14h14min - Atualizada em 06/07/2025 às 14h13min

A loucura dentro da sanidade

O constante diálogo que temos entre o consciente e o inconsciente

Criação por IA

Muitos de nós passamos a vida tentando parecer sensatos. Acreditamos que o maior perigo é perder a razão, sair falando sozinhos pelas ruas, vestir o estigma da loucura. Mas, se olharmos com mais cuidado, veremos que existe uma estranha forma de insanidade oculta naquilo que chamamos de sanidade.

 

Tenho lido “O poder do agora” de Eckhart Tolle e ele faz um convite desconcertante para observarmos nossos pensamentos, assim como fazem os budistas. No capítulo “Você não é sua mente”, Eckhart Tolle mostra como passamos o tempo em diálogos silenciosos com nós mesmos — tagarelas internas que criticam, julgam, projetam, se preocupam. Quando essas vozes escapam pela boca de quem dorme na calçada, chamamos de delírio. Quando permanecem confinadas no silêncio da mente, chamamos de “normalidade”. Mas, em essência, é o mesmo processo: uma conversa sem fim que acreditamos ser quem somos.

 

No mesmo trecho, Eckhart Tolle narra a história do mendigo que pede esmolas sentado sobre uma caixa. Um desconhecido passa e sugere que ele olhe dentro dela. O mendigo se recusa, convencido de que não há nada ali. Até que um dia resolve abrir a tampa e encontra ouro. Nessa parábola, a riqueza interna que cada um de nós carrega, mas por vezes não enxergamos e preferimos mendigar migalhas de atenção, reconhecimento e afeto sem nunca investigar o próprio tesouro.

 

Carl Jung chamaria esse ouro de Self, o centro profundo da psique que só se revela quando temos coragem de atravessar a névoa das nossas vozes internas. Foi também Jung quem nos ensinou que aquilo que rotulamos como “loucura” pode conter sentido simbólico, um pedido de reconciliação com as partes que negamos.

 

Lembro de Raul Seixas, outro que foi rotulado de louco. “Eu prefiro ser essa metamorfose ambulante do que ter aquela velha opinião formada sobre tudo.” Talvez seja essa metamorfose — a consciência de que somos muitos em um — que nos salve da rigidez que a sociedade chama de sanidade.

 

No fundo, quem é mais são: aquele que reconhece suas vozes internas e se abre ao mistério de existir, ou aquele que passa a vida fingindo controle absoluto? A resposta simples que nenhuma teoria supera está na canção de Charlie Brown Jr: “disso os loucos sabem, só os loucos sabem.”

 

Inverno de 2025 (verão no hemisfério norte)

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