Era tarde da noite e pelo whatsapp recebi uma canção, na verdade uma junção de vários sons, pássaros cantando, vento, uma fogueira queimando, sinos de cilindros metálicos “sonando”, uma experiência sonora de pouco mais de 10 minutos. A recomendação seria apenas me concentrar e ouvir com fones em um momento em que a casa estivesse “quieta”. Foi relativamente fácil, estava sozinho, minha filha e meu genro haviam acabado de sair, depois do jantar.
Sentei no meio da sala na posição de meditação, fones de ouvido e coloquei a tal canção para ouvir com os olhos fechados. Em um primeiro momento e deu medo, muito medo, um arrepio no corpo todo, como o pelo de um gato que encrespa até a alma. Medo de fantasma, um temor infantil. Não consegui dominar o medo e tive que mudar de posição e deixar as costas protegidas, voltadas para parede e daí o medo se foi.
Mas não conseguia aquietar os pensamentos e as mãos, nem na posição do zazen, denominada Hokkai-join, e nem na posição Mudrá da yoga apoiada nos joelhos com aquele de sinal de ok, com polegar e indicador se tocando e os demais dedos levantados, que no Brasil de antigamente era sinal de um palavrão. Largueis os braços no meio do cruzamento das pernas e as mãos ficaram apoiada e quietas. Passei a sentir a sensação de ser a chama de uma vela, como se as pernas fossem um castiçal e o tronco o fogo.
O dorso passou a mover-se lentamente para esquerda, direita, frente, atrás, diagonal, involuntariamente para todas as posições como no dançar da chama de uma vela. Os olhos ficaram fechados o tempo todo. Quando a música terminou, as pálpebras subiram sozinhas, de forma involuntária, e senti uma estranha sensação de estar chegando naquele lugar, naquele exato momento. Mas como chegar em algum lugar, sem ter tido a sensação de ter saído? Eu somente bailava ao sabor de um suave vento, depois que dominei o pânico inicial. Estava com os olhos abertos, mas sonhando ainda, como se estivesse em outra dimensão.
Escrevi para o Pablo, um amigo que tem todas as respostas e ele veio cheio de interpretações. “O que você relatou é muito rico, tanto psicologicamente quanto em termos de simbolismo espiritual. Vou te ajudar a refletir sobre possíveis significados transcendentais, mas lembre-se de que são interpretações — cada pessoa sente e vivencia de modo único”, disse meu velho amigo.
O medo inicial intenso teria os possíveis significados:
• Purgação emocional: práticas meditativas, principalmente se você está em silêncio e vulnerável, podem trazer à tona medos guardados, traços de ansiedade ou memórias antigas que se manifestam como medo primitivo.
• Sensibilidade energética: há quem interprete que ambientes carregados, ou estados alterados de consciência, tornam você mais sensível a “presenças sutis”, e esse medo pode ser um alarme psíquico — real ou simbólico.
• Perda momentânea do ego: algumas tradições dizem que, ao relaxar barreiras do ego, surge um “vazio” que pode parecer ameaçador antes de ser acolhido.
Espiritualmente, poderia simbolizar que eu estava me aproximando de uma camada mais profunda da consciência onde não há controle. O ego reage com medo.
A necessidade de proteger as costas traria os possíveis significados:
• Instinto ancestral: nosso corpo biológico associa costas expostas ao perigo (no passado, ataques vinham por trás). Esse medo é tão antigo que é quase universal.
• Energia e proteção: algumas linhas esotéricas recomendam sempre meditar com as costas voltadas para uma parede para “fechar o campo” e não dispersar energia.
• Sentido de território seguro: psicologicamente, mudar de posição devolve a uma sensação de estar amparado.
As mãos inquietas:
• As mãos são extensões do fazer. Quando tentamos não fazer nada, elas ainda “protestam”.
• Em termos energéticos, podem indicar carga acumulada precisando ser descarregada (por isso algumas tradições ensinam a pôr as mãos sobre os joelhos ou unidas para equilibrar).
A sensação de virar uma chama:
• Transcendência parcial do ego: meu corpo não era mais apenas “eu”, mas parte de uma imagem simbólica (o castiçal e a chama).
• Metáfora espiritual: na tradição hindu e budista, a chama simboliza consciência pura que brilha no silêncio, impermanência (sempre se movendo) e o vínculo entre matéria (castiçal) e espírito (chama).
A sensação de chegar sem ter saído:
• Percepção de presença radical: a mente normal está sempre “um passo à frente ou atrás”. Quando cessa esse ruído, podemos ter a impressão de “chegar no agora” de forma tão vívida que parece um retorno.
• Estado liminar: muitos meditadores relatam que, ao sair de uma imersão profunda, têm uma sensação de não saber direito de onde vieram.
• Deslocamento da consciência: em termos espirituais, pode-se transitar para um estado ampliado e voltado — embora tenha estado fisicamente parado.
Senti um medo primordial, o ego se defendendo do invisível, uma sensação de proteção ao achar a posição correta, manifestação de energia pelas mãos, vivência simbólica de ser chama e, por fim, a percepção do presente absoluto. Tudo isso por conta de uma canção na calada da noite.
Inverno de 2025 (verão no hemisfério norte)