Tinha que ser num dia 13... era o número dele, o número da borboleta no jogo do bicho... fui ao encontro de alinhar as minhas energias porque nos últimos tempos queimei quatro lâmpadas no meu apartamento, duas simplesmente estouraram quando eu acendi, a corrente que usava no pescoço arrebentou do nada, minha dermatite voltou com tudo, meu pé esquerdo dava choques constantes, como há muito tempo não eletrizavam, e tantas outras coisas supostamente estranhas ocorriam comigo.
A sessão de terapia começou como um bate papo, como toda sessão começa, e depois na maca. O Amanae, se pronuncia ‘amaní’ é uma terapia corporal multidimensional, baseada na ideia de que o corpo armazena emoções e experiências não processadas. O objetivo do Amanae é liberar esses bloqueios através da ativação de “portais” no corpo, permitindo que a pessoa expresse emoções reprimidas e alcance uma maior integração com a mente e a alma.
A segunda hora da sessão seria para destravar o que estava engasgado na voz, no coração e no peito. Mas não havia nada entalado, como das outras vezes, e ao entoar sons e cânticos ancestrais, a terapeuta perguntava o que eu via... e enxergava uma caverna profunda cheia de cristais no teto e um rio de água corrente e cristalina. Não somente via, como estava dentro dela e caí nesse rio e deixei que o corpo ganhasse profundidade, sem necessidade de vir à tona para respirar. Subi um pouco, sem chegar na superfície e o curso do rio me levou até o encontro do mar. Nesse exato momento, a terapeuta emitia sons de vento e meu corpo que submergiu no leito do rio, agora emergia do fundo do mar para me tornar vento, elemento que sempre fui... água transformada em vento, maresia, pela primeira vez, e depois éter, o quinto elemento.
Foi nesse momento em que meu pai surgiu de novo, vi a imagem dele sorrindo para mim e depois se reconectando ao meu corpo, como desde sempre. Em 22 de fevereiro ao entrar sem roupas em um riacho em Joanópolis, senti, pela primeira vez, que ele me deixava depois de ter me acompanhado após a sua morte em 1989. Entendi que eu poderia caminhar sozinho sem a proteção dele, mas tinha que ser justamente antes de um dos meus maiores desafios que foi a caminhada pelas montanhas do Himalaia?
Pois foi assim, ele deixou que eu caminhasse com as minhas próprias pernas, sem a proteção paterna e a força masculina, sem a sensação que sempre tive de ter o corpo fechado, não por arrogância de que estaria imune a qualquer mal, mas por proteção. E assim foi no Nepal, eu comigo mesmo, sem ele, cuidando de mim.
Quase quatro meses depois ele voltou para sua eterna morada, dentro do meu peito, ele que, curiosamente, se foi por conta de um coração que parou. A sensação da presença de meu pai, como tantos outros que me habitam e tão bem descreveu Fernando Pessoa sobre a existência de vários dentro de um só, retornava. Bom ter você mais um uma vez, papai, permissão concedida para que eu caminhasse absolutamente só e descobrisse a minha força para seguir adiante subindo e descendo as montanhas mais altas do mundo, que se moveram logo na minha chegada, fazendo a terra toda tremer, como se dissesse: “quer mesmo subir?”. E eu quis, depois do choro, do medo e da permissão pedida para escalar as montanhas, após um terremoto de 6.1 na escala Richter, e fui.
Agora mais íntegro, mais lúcido e mais em paz te recebo de volta em meu corpo/casa, sua casa também, papai. Obrigado por entender a minha necessidade de seguir só e desculpa pelos quase quatro meses que te deixei “sem teto”, afinal você não me deixou um instante sequer. Sou pai também e entendo que um filho precisa submergir para depois voar... água, ar e um dia éter.
Outono de 2025
Texto originalmente escrito em 13 de junho de 2025