Um casal de amigos me pediu dicas sobre a capital argentina. Iriam viajar juntos, pela primeira vez, para Buenos Aires. Abri a caixa com histórias antigas, mas muitas delas recentes, e fui selecionando os folhetos das principais atrações, que iam se sucedendo como diapositivos em minhas memórias. Todas projetadas na parede da sala, em fragmentos congelados de pequenos quadrados de slides. Cena por cena foi passando, e eu anotando todas.
Para quem é mais jovem, talvez não esteja entendendo patavina do que estou escrevendo. Aliás, “patavina” é palavra da mesma época que os diapositivos. Para facilitar a vida: é como se você estivesse assistindo a uma palestra e o conferencista projetasse seu próprio arquivo de PowerPoint, com uma sequência de fotos. E “patavina” é bolhufas, palavra que também adoro, mas que talvez tenha deixado você na mesma, se tiver menos de uns “enta”. Patavinas, bolhufas... significam não saber nada, não ter a menor ideia, assim como todos fazemos nessa existência.
Caderninho na mão, cheio de anotações depois de revisitar minhas lembranças, enchi o casal de dicas: bairros a visitar, ruas para caminhar, bares, restaurantes, além de listar o que evitar, pontos óbvios que todo mundo faz e são um porre. Adoro voltar de algum lugar sem fazer a principal atração e, quando você comenta com algum amigo, ele vai certeiro: “Você subiu na Torre Eiffel?” Não. O mercado de pulgas era muito mais interessante e de graça.
Voltando ao casal amigo, gentilmente, eles se ofereceram para trazer algo para mim, sugeriram um vinho, um alfajor, um livro que só tivesse por lá ou qualquer outro presente que fizesse reviver ainda mais meus saudosos sentimentos por Buenos Aires. Obviamente, respondi que não queria nada e que eles aproveitassem a cidade. Mas, na noite seguinte, sonhei com um pedido. Acordei e mandei para eles:
Quero uma coisa de Buenos Aires. Quero uma experiência, um instante roubado da cidade. Vocês têm que fazer e depois me contar como foi. Quando estiverem caminhando por aí, não importa onde: pelas ruas da Recoleta, pelos becos cheios de grafites de Palermo, pelo Malba ou pelo Parque Tres de Febrero, relativamente perto do aeroporto, onde o vento traz os sonhos de viajantes e se mistura com as folhas do passado inverno, parem um pouco. Coloquem os fones de ouvido e ouçam uma canção que vou enviar.
Não é só uma música. É uma memória com melodia, uma esquina da minha vida por onde passaram três grandes momentos, três arrebatamentos que me atravessaram o peito com força de um tango, mesmo não tendo caminhado comigo pela cidade. Curioso como uma mesma canção pode caber em histórias tão diferentes e, ainda assim, fazer a vida pulsar no mesmo compasso.
Ouvi a misteriosa canção, pela primeira vez num bar em Buenos Aires, por isso marcou para mim a capital argentina. Havia luz amarelada, de um amanhecer, copos meio vazios e olhares inteiros. Foi um desses momentos em que o tempo resolveu fazer uma pausa para respirar: “se paró el reloj de arena, 730 días”, como um dia poetizou o uruguaio Jorge Drexler. Um instante que durou 730 dias na memória.
Então, façam isso por mim. Caminhem por Buenos Aires com essa trilha sonora. Deixem que ela se misture ao som dos passos, ao cheiro do café, à conversa baixa nas mesas ao lado, às vezes alta, porque os portenhos berram deliciosa e irritantemente. E depois me contém o que sentiram: se o coração bateu mais lento, mais rápido ou simplesmente parou de bater. Suerte, mucha suerte, boludos.
Primavera de 2025 (outono no hemisfério norte)