09/10/2025 às 23h42min - Atualizada em 09/10/2025 às 23h41min

Aos nossos filhos e a nós mesmos

Música, memória e afeto, um balanço de paternidade

Zé Luchetti - comunicasampa.com.br
Criação por IA

Liguei a TV — movimento que quase nunca faço — e estava passando uma entrevista com Ivan Lins. Na sequência, tocou Aos nossos filhos, escrita por ele e, no programa, interpretada por Elis Regina, que dava vida a cada palavra, a cada pedido de perdão. Foi tão denso, autêntico e infinito que o diretor de TV cortou a cena e mostrou um Ivan Lins emocionado. No sofá, eu estava em prantos.

Não sei em que fase da vida a gente começa a fazer essas contas, mas eu as fiz o tempo todo e sigo fazendo, porque “tive cara amarrada, faltei com um abraço e com espaço, porque os dias eram assim”. Ivan Lins e Vitor Martins compuseram uma metáfora para os dias sombrios que rondaram o Brasil durante o período militar. Mas, pela primeira vez, vesti a canção sem a roupa da história, olhando apenas para os meus fracassos e para aquilo que não fui aos meus filhos.

Aos nossos filhos chega aos meus ouvidos no exato momento em que faço esses balanços pela enésima vez. Dialogando com um e com outro, vejo que o que dói em mim não dói neles. E o que dói ou doeu neles, eu sequer imaginava que pudesse doer. Mas está tudo certo: acho que as contas fecharam. Ainda assim, sigo chorando no sofá.

Apaguei todas as luzes da casa e deixei apenas uma, bem fraquinha, amarela, no canto, a contrapor com a luz da tela do computador onde escrevo minhas angústias de pai, na tentativa de que a tristeza fosse embora. E ela foi... deu lugar às sincronicidades que vivi com meus dois filhos.

Caminhar fundo em infinitos nos traz respostas, compreensões, nostalgias.

Um ano antes do nascimento da minha filha, visitei o Canadá. Alguns anos depois de casado, queríamos ter filhos — desejo maior da minha ex-esposa —, mas houve certa dificuldade para ela engravidar. Foram meses de tratamento e nada. Em Montreal, visitamos a Catedral de São José, padroeiro da cidade, e mirando o santo pedi, mesmo não crendo, que viesse um bebê, como aquele que São José carregava. Meses depois, a gravidez; nove meses depois, uma menina chegou.

A história do Canadá ficou guardada num canto da memória por anos. Um dia, contando-a a um casal de amigos recém-conhecidos, um clique se deu em meu cérebro: quando teria sido a visita à Catedral de São José? Chegando em casa, corri ao armário onde guardo meus diários de viagem, folheei rapidamente e cheguei ao dia 20 de setembro de 1996 — exatamente um ano antes do nascimento da minha filha. Os católicos diriam que foi milagre; os céticos, coincidência; Jung, sincronicidade. Seja o que for, foi um sonho partilhado que se tornou realidade.

Seguiram-se anos de uma casa barulhenta, cheia de vida: crianças correndo pelos corredores, batendo portas, espalhando bagunça pelos quartos, brinquedos e lições de casa por todos os cantos. “A cara amarrada, a falta de abraço e a falta de espaço” foram apenas fragmentos isolados em meio a tantos sorrisos, gargalhadas, conversas sérias e outras nem tanto, broncas necessárias e algumas exageradas, histórias do Sítio do Picapau Amarelo contadas no fim do dia, antes deles dormirem, mesmo quando eu estava morto de cansaço.

Agora, já crescidos e longe de casa, gosto de vê-los caminhar pela estrada, trilhando o próprio destino com seus acertos e erros. Enche os olhos saber como estão. E um dia, “quando brotarem as flores, quando crescerem as matas, quando colherem os frutos, digam o gosto pra mim”. Ao provarem a vida de um jeito diferente do meu, vou querer saber o sabor que ela tem.

Primavera de 2025 (outono no hemisfério norte)

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