Na madrugada do dia 29 para 30 de outubro de 2023, tive uma noite agitada, incomum — afinal, sempre durmo bem. Acordei algumas vezes e, em uma delas, veio à mente a imagem do final do livro de Ernest Hemingway, O Velho e o Mar. Santiago havia morrido — como eu não tinha percebido? Na parábola que encerra o livro, Hemingway escreve: “O velho estava dormindo de novo e sonhava com os leões.”
O Velho e o Mar fala de uma linda relação fraternal entre um ancião e um jovem pescador. A amizade entre Santiago e Manolin é permeada de afeto e admiração. Manolin vê Santiago como um mestre e um herói. Apesar de o velho estar em má fase na pescaria, o garoto nunca perde a fé nele.
Manolin cuida de Santiago como um filho carinhoso: leva comida, ajuda a carregar o material de pesca, faz companhia. Já Santiago trata o menino com ternura e transmite sua sabedoria. Manolin representa a juventude e a continuidade da arte da pesca, enquanto Santiago simboliza a experiência e a resistência do viver.
Quando o velho retorna do mar e da luta com o grande peixe, exausto e derrotado aos olhos do mundo, Manolin reafirma que quer pescar com ele novamente. Isso mostra que o verdadeiro triunfo de Santiago não está no peixe perdido, mas no legado de amor que deixa ao jovem. E, naquela noite que encerra o livro, é que ele sonha com os leões.
Ao ler pela primeira vez, em fevereiro de 1992, interpretei que sonhar com leões era manter a dignidade e a conexão com a vida, mesmo com a proximidade da finitude. Mas Hemingway não escrevia sobre o corpo; escrevia sobre a alma. Ainda atordoado com o fato de só ter desvendado o simbolismo daquilo tudo trinta anos depois, escrevi, ainda na cama, uma poesia.
No meio da madrugada
ele acorda para
sonhar…
O Velho de Hemingway
volta do mar para
encontrar leões
e no dedilhar do piano
o sussurrar da voz
ressoa junto
com a respiração
num fole da alma.
O Velho, então…
diz a última palavra:
a m o r
Hemingway foi um mestre, um velho pescador de palavras que alimentaram muita gente. Mesmo após a sua morte, continua a dialogar comigo e, desde sempre, por meio de seus textos e livros, ensinou um jovem redator que também desejava ser pescador de palavras.
Ao acordar, pensei em enviar a poesia para uma linda mulher, mas achei que dizia respeito apenas a mim e não mandei. Coincidentemente — se é que existe coincidência nisso —, segundos depois, a mesma mulher me encaminhou uma canção de Rubel chamada “O Velho e o Mar”. Tenho prints de tela para provar. Juro! Isso aconteceu às 6h50 daquela mesma manhã, logo após o sonho.
Rubel começa a canção cantando em inglês, repetidas vezes, a frase: “When you awake inside”, que numa tradução livre seria “quando você acorda por dentro”. E segue em sua poesia: “Lança o barco contra o mar, / venha o vento que houver, / e se puder, voa.” Não haveria um despertar interno tão simbólico, pelo menos para mim.
Questionei por que ela tinha me enviado a canção, e a explicação foi simples: estava ouvindo uma playlist e, de repente, essa música entrou. Ela também não a conhecia. Gostou, foi à internet procurar a letra e concluiu que “tinha sido feita para mim”.
Escrevi primeiro para mim.
Guardei — achei que seria vaidade enviar.
Mas quando você me mandou a música,
a poesia deixou de ser só minha.
Não cabia mais em silêncio.
Eu precisava enviar,
mas não por tela fria,
de uma mensagem pelo celular.
Quis o gesto antigo:
carta escrita à mão,
papel arrancado da agenda,
como quem arranca
um pedaço do coração.
Precisava que o rio seguisse seu curso,
que o tempo desenhasse o encontro,
que a corrente me levasse
em forma de poesia.
Naquele mesmo dia, contei a história para um casal com idade parecida com a minha quando li o livro de Hemingway pela primeira vez. O garoto, “um jovem pescador”, interessou-se pelo livro, e o velho Santiago, que hoje vive em mim, entregou-lhe o exemplar em inglês. “When you awake inside”!
Inverno de 2025 (verão no hemisfério norte)