O machismo estrutural também está entre as mulheres
Ataque à influenciadora revela como regras morais impostas pelo preconceito de gênero ainda limitam a liberdade feminina
Ana Kemp e a foto publicada
A empresária e influenciadora Ana Kemp, do Brooklin Indica, publicou uma selfie em frente ao elevador antes de sair com a família para uma noite de diversão, no final de semana passado. Uma seguidora, que em seu perfil se apresenta como advogada, enviou mensagens de julgamento e agressividade: “Ridícula, ‘braga’ (provavelmente querendo dizer ‘brega’, pelo contexto), se põe no seu lugar.”
A frase “se põe no seu lugar” é compreensível, mas não se adequa à norma culta da língua portuguesa — especialmente vinda de alguém que se apresenta como advogada. O verbo pôr está na 3ª pessoa do singular do presente do indicativo (põe), mas o pronome reflexivo se sugere o uso de imperativo, direcionado à 2ª pessoa (tu ou você). As formas mais corretas seriam: “Põe-te no teu lugar.”, “Ponha-se no seu lugar.” ou ainda “Coloque-se no seu lugar.”
Mas a questão aqui não é o léxico, e sim a intolerância e o propósito firme de atacar psicologicamente, de maneira desnecessária, outra mulher, por meio de um machismo estrutural que impõe regras morais limitando a liberdade de outra. Recentemente, em um artigo sobre ética, lembrei que há exatos 10 anos a jovem ativista sindical e líder acadêmica Beth Breslaw fez um curioso experimento pelas ruas de Nova York. Ela decidiu não ceder mais espaço a ninguém que cruzasse seu caminho nas calçadas da cidade. A ideia surgiu após uma conversa com uma amiga, na qual refletiam que os homens eram menos propensos a ceder espaço do que as mulheres. Quando o encontro era inevitável, os homens geralmente diziam “excuse me” (com licença), enquanto as mulheres pediam “sorry” (desculpa). O experimento fez tanto sucesso que Beth Breslaw foi entrevistada pela revista The New Yorker, e o material repercutiu em diversas publicações pelo mundo, como os britânicos The Times e The Guardian.
A iniciativa revelou o quanto ainda convivemos com o preconceito enraizado de gênero, muitas vezes sem perceber. Em um show da uruguaia Ana Prada, em Barra de Valizas, no litoral norte do Uruguai, houve um momento simbólico. Antes de cantar “Soy Pecadora”, a artista falou da importância de as mulheres não terem vergonha de sentir prazer e de buscarem seus desejos. Em seguida, Ana Prada cantou “Los Hermanos”, gravada por Elis Regina em 1976, mas trocou a palavra no masculino por “Las Hermanas”. De imediato, um uníssono coral feminino da plateia acompanhou a artista.
Quando uma mulher nasce, recebe o sobrenome do pai, que muitas vezes só é alterado quando se casa e “ganha” o sobrenome do marido. Para existir, parece que ela sempre precisa de um homem. Mas já passou da hora de pensarmos fora da caixa — como se diz — e demolirmos o machismo estrutural, assim como tão bem fez Ana Prada e foi acompanhada por praticamente todas as demais mulheres na plateia. Cabe ao homem pedir desculpas quando esbarra em uma mulher nas ruas. Cabe a outra mulher não rotular alguém apenas porque decidiu se divertir com a família seja da forma que for.
Cabe a todos nós não submeter uns aos outros a situações tão absurdas como a vivida por Ana Kemp. No artigo sobre ética que mencionei, destaquei que o feminismo trata da igualdade de direitos. Que sejamos livres e felizes para vivermos e fazer o que realmente quisermos.