Inflamação na gengiva pode aumentar em até 30% o risco de doenças cardiovasculares

Durante o Congresso da SOCESP, especialistas discutirão como incorporar visão multidisciplinar à prática clínica e às políticas de prevenção

Por
1 4 Min

Inflamação na gengiva pode aumentar em até 30% o risco de doenças cardiovasculares
Divulgação da SOCESP

Estudos epidemiológicos, publicados na Revista da SOCESP*, indicam que pessoas com inflamação crônica da gengiva, doença periodontal, apresentam um risco entre 20% e 30% maior de desenvolver doenças cardiovasculares em comparação com indivíduos com gengivas saudáveis. O dado, cada vez mais consistente na literatura científica, reforça um alerta importante para a saúde pública: a prevenção das doenças do coração também pode começar pela saúde bucal. 

A relevância dessa associação será destaque no 46º Congresso da SOCESP, que acontece de 4 a 6 de junho, em São Paulo, reunindo cardiologistas, cirurgiões-dentistas e outros especialistas para discutir a integração entre saúde oral e cardiovascular, um tema que ganha espaço crescente na medicina preventiva moderna. 

Segundo o cirurgião-dentista Frederico Buhatem de Medeiros, assessor científico do Departamento de Odontologia da SOCESP, as evidências científicas vêm transformando a compreensão tradicional sobre prevenção cardiovascular. “Hoje sabemos que o organismo funciona de forma integrada e que inflamações crônicas na boca podem repercutir em todo o corpo, inclusive no sistema cardiovascular”, afirma. 

O estudo publicado na Revista da SOCESP analisou 22 pesquisas nacionais e internacionais e reforça essa conexão ao demonstrar que doenças periodontais, infecções odontogênicas e hábitos de vida inadequados contribuem para processos inflamatórios sistêmicos associados ao desenvolvimento e à progressão de problemas cardíacos. 

“A doença periodontal é considerada a principal protagonista dessa relação. Trata-se de uma inflamação crônica que pode evoluir para perda óssea e até dos dentes, mas cujos impactos vão além da cavidade oral”, explica Frederico Buhatem. Pesquisas realizadas em diferentes países, incluindo o Brasil, associam gengivas inflamadas a maior risco de condições cardiovasculares como doença arterial coronariana (relacionada ao infarto), acidente vascular cerebral (AVC), aterosclerose e endocardite infecciosa. 

O assessor científico do Departamento de Odontologia explica que a ciência aponta três mecanismos principais que ajudam a explicar essa conexão biológica: “inflamação sistêmica: mediadores inflamatórios liberados pela doença periodontal circulam no sangue e favorecem a formação de placas nas artérias; disseminação bacteriana: bactérias da gengiva inflamada podem alcançar a corrente sanguínea e já foram identificadas em placas ateroscleróticas; e resposta imunológica cruzada: o processo inflamatório pode provocar disfunção endotelial, etapa inicial das doenças cardiovasculares”. 

Embora estudos de longo prazo ainda busquem medir o impacto direto da saúde bucal na redução de eventos cardiovasculares, “as pesquisas atuais já mostram resultados promissores”, concluiu o especialista. O tratamento periodontal tem sido associado à redução de marcadores inflamatórios, melhora da função vascular e melhor controle glicêmico em pacientes diabéticos, essenciais para a saúde do coração. 

Durante o Congresso da SOCESP, especialistas discutirão como incorporar essa visão multidisciplinar à prática clínica e às políticas de prevenção, reforçando que cuidados simples, como higiene bucal adequada, alimentação equilibrada, evitar tabagismo e consultas regulares ao dentista, podem representar também uma medida concreta de proteção cardiovascular. O fórum de especialidades reunirá, além de cardiologistas e cirurgiões dentistas, educadores físicos, enfermeiros, farmacêuticos, fisioterapeutas, nutricionistas, psicólogos, profissionais de serviço social e cuidados paliativos.  


Notícias Relacionadas »