Avanços na cardiologia destacam personalização do tratamento, menos invasividade e novos olhares para pacientes frágeis

Estudos que estão mudando o dia a dia nos consultórios serão debatidos por lideranças médicas internacionais e brasileiras em um dos mais importantes eventos da cardiologia mundial, realizado de 4 a 6 de junho em São Paulo

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Divulgação da SOCESP

Três estudos recentes nacionais ajudam a redesenhar a prática da cardiologia ao apontar caminhos mais personalizados, menos invasivos e mais adequados a perfis específicos de pacientes. Os achados dos estudos NEOMINDSET, SURVIV e FRAGILE estarão entre os destaques do 46º Congresso da Sociedade de Cardiologia do Estado de São Paulo (SOCESP), trazendo evidências que podem impactar diretamente a forma como doenças cardiovasculares são tratadas e prevenidas. 

No estudo NEOMINDSET, pesquisadores brasileiros analisaram mais de 3.400 pacientes para entender se seria seguro simplificar o tratamento após um infarto, retirando precocemente a aspirina e mantendo apenas um medicamento mais potente. A estratégia, que poderia reduzir efeitos colaterais, foi testada em diferentes perfis de pacientes. 

Os resultados mostram que essa decisão deve ser tomada com cautela. Em casos mais graves, especialmente no primeiro mês após o infarto, a retirada da aspirina não foi segura em relação ao risco de novos eventos cardíacos. Por outro lado, em pacientes com quadros menos graves, há potencial para a simplificação do tratamento, especialmente com o objetivo de redução de sangramentos. “O estudo reforça que não existe uma abordagem única. O tratamento após o infarto precisa ser individualizado, equilibrando risco de novos eventos e efeitos colaterais”, afirma Pedro Barros, coordenador do Late Break Clinical Trials (Ensaios Clínicos de Última Hora) do 46º Congresso. 

Já o estudo SURVIV investiga uma questão cada vez mais frequente na prática clínica: o que fazer quando uma válvula cardíaca previamente implantada deixa de funcionar. Tradicionalmente, esses pacientes são submetidos a uma nova cirurgia, procedimento complexo e de maior risco, especialmente em idosos. 

A pesquisa compara essa abordagem com uma alternativa menos invasiva, realizada por cateter, conhecida como “valve-in-valve”. Embora ainda em andamento, o estudo busca avaliar desfechos como sobrevida e risco de AVC ao longo do tempo. “Se confirmada a eficácia da técnica por cateter a longo prazo, teremos uma evidência adequada para indicar um procedimento que é mais seguro e com recuperação mais rápida para esses pacientes que, muitas vezes, já apresentam maior fragilidade”, destaca Pedro Barros. 

O estudo FRAGILE, por sua vez, lança luz sobre um grupo historicamente pouco representado em pesquisas: os idosos frágeis submetidos à cirurgia cardíaca. Com idade média superior a 80 anos, os pacientes foram submetidos a duas abordagens cirúrgicas distintas: a técnica convencional, com uso de circulação extracorpórea, e a técnica sem circulação extracorpórea, que, ao evitar o bypass cardiopulmonar, está associada a menor resposta inflamatória sistêmica o que pode gerar potenciais benefícios perioperatórios num grupo mais fragilizado. 

Após um ano de acompanhamento, não houve diferença significativa entre as duas técnicas em relação a desfechos como morte, infarto ou AVC. Um dado relevante foi a melhora do grau de fragilidade após a cirurgia, indicando que o procedimento pode trazer benefícios além do controle da doença cardíaca. “O trabalho mostra que a cirurgia pode ser indicada mesmo em pacientes muito idosos, mas a escolha da técnica deve ser cuidadosamente individualizada”, afirma Pedro Barros. 

Os três estudos evidenciam uma tendência crescente na cardiologia: adaptar o tratamento às características de cada paciente, considerando não apenas a doença, mas também idade, risco e condições clínicas associadas. 

Esses e outros temas serão amplamente debatidos por especialistas de todo o Brasil durante o congresso da SOCESP, em uma série de sessões dedicadas aos principais estudos nacionais e internacionais da cardiologia. As discussões irão abordar como essas evidências estão sendo incorporadas à prática clínica e de que forma podem contribuir para avanços que se traduzam em mais qualidade de vida para a população.