Uma viagem pelo Xingó e a trilha que leva ao fim do cangaço

Imersão simultânea em natureza, cultura e história sertaneja

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Uma viagem pelo Xingó e a trilha que leva ao fim do cangaço
Cânions do Xingó e piscina cercada para proteger turistas dos redemoinhos do Rio São Francisco (crédito: MFTur)

Entre Sergipe e Alagoas, o Rio São Francisco revela um dos cenários mais surpreendentes do Nordeste brasileiro. Navegar pelo Cânion do Xingó é mais do que um passeio turístico, é uma imersão simultânea em natureza, cultura e história sertaneja, onde o Velho Chico muda de ritmo e se transforma em espetáculo. 

O trajeto começa pelas águas calmas e de tonalidade verde-esmeralda, resultado do represamento que formou o lago da usina hidrelétrica nos anos 1990. À medida que a embarcação avança, os paredões rochosos surgem imponentes, alcançando mais de cem metros de altura e criando corredores naturais que impressionam pela escala e pelo silêncio. Diferente dos cânions montanhosos do Sul do país, Xingó apresenta uma paisagem singular: o encontro entre o relevo escarpado e o bioma da caatinga, único exclusivamente brasileiro. 

Durante a navegação, o contraste chama atenção. De um lado, a aridez aparente do sertão; do outro, a presença constante da água, elemento que moldou a vida econômica, social e simbólica da região ao longo dos séculos. O Rio São Francisco não é apenas cenário, é personagem central da história nordestina. 

A passeio, conduzido pela companhia MF Tur, a maior da região, que transporta 200 mil turistas brasileiros e de outros países todos os anos, faz uma parada de uma hora para que os visitantes possam mergulhar no Velho Chico. Na mesma parada é possível subir em pequenas embarcações de até oito pessoas e navegar por trechos bem estreitos e com as águas ainda mais verde esmeralda.  

 

Grota de Angico 

A experiência pela região ganha outra dimensão quando o roteiro segue até o Monumento Natural Grota do Angico, em Sergipe. Uma caminhada de cerca de uma hora, entre ida e volta, pela trilha que corta o bioma da caatinga até a Grota de Angico. O percurso revela uma biodiversidade diversa e muito peculiar com mandacarus, xique-xiques, bromélias resistentes ao clima semiárido e árvores adaptadas à escassez hídrica. 

A caminhada, sob o sol sertanejo e em terreno pedregoso, transforma-se em exercício de observação. Cada espécie vegetal parece contar uma história de sobrevivência, enquanto o silêncio do ambiente reforça a sensação de isolamento que marcou o passado da região. 

É nesse cenário que história e geografia se encontram. A Grota do Angico ficou conhecida como o local onde, em 1938, ocorreu a emboscada policial que resultou na morte de Virgulino Ferreira da Silva, o Lampião, líder mais emblemático do cangaço. O espaço preservado hoje convida menos ao espetáculo e mais à reflexão. Ali, o visitante percebe como o relevo acidentado e a vegetação densa funcionavam como refúgio natural para os bandos que cruzavam o sertão. 

O retorno pelo mesmo caminho permite compreender melhor a relação entre paisagem e memória. O sertão deixa de ser apenas imagem estereotipada de seca e passa a revelar complexidade ambiental, riqueza cultural e profundo valor histórico. 

O passeio pelo Xingó e pela Grota do Angico sintetiza justamente essa dualidade nordestina: beleza e dureza, água e pedra, silêncio e narrativa. Uma viagem que une contemplação e conhecimento, mostrando que o turismo, quando aliado à preservação e à interpretação histórica, transforma-se em experiência capaz de ampliar o olhar sobre o Brasil e suas múltiplas identidades. 

 

Piranhas 

Hospedar-se na charmosa Piranhas, em Alagoas, é parte essencial da experiência de conhecer o Cânion do Xingó. Tombado pelo Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional, o centro histórico preserva casarões coloridos do século XIX que se espalham pelas ladeiras às margens do Rio São Francisco. Caminhar sem pressa pelas ruas de pedra revela igrejas, mirantes naturais e pequenos museus, como o Museu do Sertão, que ajuda a compreender a cultura sertaneja e a história do cangaço na região. À noite, a cidade ganha atmosfera acolhedora, com restaurantes e bares iluminados na orla fluvial, onde o ritmo tranquilo convida o visitante a prolongar a estadia e viver o sertão e a gastronomia regional.