Estudos destacam avanços na prevenção cardiovascular e desafios no controle de doenças no Brasil

EPICO constata que adesão aos tratamentos de colesterol, hipertensão e diabetes ainda é muito baixa e VESALIUS-CV aponta a importância de tratar, cada vez mais cedo, o colesterol “ruim”

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Alimentação saudável para prevenção cardiovascular

Dois estudos de grande relevância, um brasileiro e outro internacional, estarão entre os destaques das discussões científicas do 46º Congresso da Sociedade de Cardiologia do Estado de São Paulo (SOCESP), de 4 a 6 de junho, em São Paulo, trazendo novas perspectivas sobre prevenção e tratamento das doenças cardiovasculares. 

O estudo brasileiro EPICO chama atenção para um problema persistente: as mortes por doenças do coração não vêm diminuindo no estado de São Paulo na última década. A análise de milhares de pacientes atendidos na atenção básica revelou falhas importantes no controle dos principais fatores de risco. 

De acordo com os dados, apenas cerca de metade dos pacientes com hipertensão mantém a pressão sob controle. No caso do diabetes, menos de um terço atinge as metas recomendadas. Já o colesterol apresenta o cenário mais crítico: menos de 15% dos pacientes estão dentro dos níveis ideais. 

“O EPICO escancara um desafio estrutural. Não se trata apenas de acesso ao tratamento, mas de garantir que ele seja seguido e funcione na prática. Isso passa por educação em saúde, acompanhamento e redução de desigualdades”, afirma Pedro Barros, coordenador do Late-Breaking Clinical Trials (Ensaios Clínicos de “Última Hora”) do 46º Congresso. 

Na outra ponta, o estudo VESALIUS-CV indica para uma mudança de paradigma no tratamento do colesterol. Pela primeira vez, um grande ensaio clínico demonstrou que reduzir de forma mais intensa o LDL, o chamado “colesterol ruim”, pode prevenir infartos e AVCs mesmo em pessoas que ainda não tiveram esses eventos. 

O estudo avaliou mais de 12 mil pacientes de alto risco e mostrou que a adição do evolocumabe (medicamento usado para reduzir o colesterol LDL que pertence a uma classe mais moderna de remédios chamada inibidores de PCSK9) ao tratamento padrão reduziu o colesterol em cerca de 55% e diminuiu significativamente a ocorrência de eventos cardiovasculares, com benefícios consistentes em diferentes perfis de pacientes. 

“Esse estudo reforça que esperar o primeiro evento pode ser tarde demais. Hoje temos evidências de que intervir mais cedo, em pacientes de alto risco, pode mudar a história natural da doença cardiovascular”, destaca Pedro Barros. Segundo ele, os achados também dialogam com o cenário brasileiro. “Enquanto avançamos com terapias cada vez mais eficazes, ainda enfrentamos dificuldades no controle básico dos fatores de risco. O grande desafio é integrar essas duas realidades”, afirma. 

Os resultados do VESALIUS-CV já começam a influenciar discussões internacionais sobre metas mais rigorosas de colesterol, enquanto, no Brasil, devem contribuir para futuras atualizações das diretrizes clínicas. 

Os dois estudos farão parte de uma série de debates no congresso da SOCESP dedicados aos principais trabalhos científicos nacionais e internacionais da cardiologia. As discussões irão abordar como essas evidências estão impactando a prática clínica e contribuindo para avanços que podem se traduzir em mais qualidade de vida para a população.