Cardiologistas discutem convergência das diretrizes do colesterol e mudanças na prevenção cardiovascular em evento da SOCESP

As mudanças recentes ocorrem em resposta a uma preocupação crescente: o aumento de eventos cardiovasculares em adultos mais jovens, fenômeno associado ao avanço da obesidade, sedentarismo e estresse

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Divulgação SOCESP

No Brasil, cerca de 40% dos adultos apresentam níveis elevados de colesterol total ou frações alteradas, como LDL alto e HDL baixo, segundo inúmeros estudos epidemiológicos e dados da Pesquisa Nacional de Saúde (PNS). A prevalência é maior entre mulheres, embora também seja significativa nos homens, aumenta após os 45 anos e está associada a fatores como baixa escolaridade e excesso de peso. Diante desse cenário, especialistas alertam que o controle do colesterol permanece como um dos principais desafios da saúde pública e da prevenção das doenças cardiovasculares. 

As mudanças recentes nas diretrizes internacionais para o manejo do colesterol sinalizam um momento de convergência global entre recomendações dos Estados Unidos, Europa e Brasil. O tema será destaque entre cardiologistas, que irão discutir o impacto dessas atualizações na prática clínica e na conduta das pessoas em relação à prevenção e ao controle desse importante fator de risco cardiovascular. 

“A nova diretriz americana reforça conceitos que já vinham sendo incorporados por sociedades médicas ao redor do mundo: avaliar o risco cardiovascular de forma mais ampla, iniciar o tratamento mais cedo e perseguir metas claras de redução do LDL-colesterol (conhecido como o ‘colesterol ruim’), explica o diretor científico da SOCESP, Andrei Sposito. O alinhamento internacional reflete a evolução das evidências científicas e a necessidade de enfrentar a persistente mortalidade por doenças cardiovasculares, ainda a principal causa de morte no mundo. No Brasil são cerca de 400 mil óbitos todos os anos.  

Entre as novidades está a adoção da equação PREVENT, ferramenta que permite estimar o risco cardiovascular não apenas em 10 anos, mas também ao longo de até três décadas. “A mudança reforça o entendimento de que o impacto do colesterol resulta da exposição acumulada ao longo da vida, deslocando o foco da prevenção para fases mais precoces”, detalha o cardiologista. 

Outro ponto central é o retorno das metas específicas de LDL como objetivo explícito do tratamento. Após anos priorizando apenas a intensidade da medicação, a diretriz americana volta a recomendar níveis-alvo, prática já consolidada no Brasil e na Europa. “Na prática, o tratamento passa a ser orientado não apenas pela prescrição, mas pelo alcance efetivo de níveis considerados seguros de colesterol”, orienta Sposito. 

As diretrizes também ampliam o uso de marcadores adicionais para refinar a avaliação do risco, como a lipoproteína(a), recomendada ao menos uma vez na vida, e a apolipoproteína B, que ajuda a estimar com maior precisão o número de partículas aterogênicas circulantes. O escore de cálcio coronariano ganha maior protagonismo como ferramenta para personalizar decisões terapêuticas, permitindo ajustar a intensidade do tratamento conforme a presença de aterosclerose detectada por imagem. 

De forma geral, as recomendações convergem no endurecimento das metas de LDL-colesterol, estratégia considerada essencial para reduzir a mortalidade cardiovascular. “O movimento ocorre em resposta a uma preocupação crescente: o aumento de eventos cardiovasculares em adultos mais jovens, fenômeno associado principalmente ao avanço da obesidade, do sedentarismo e dos níveis elevados de estresse na população”, ressalta o diretor da SOCESP. 

A relevância do tema é tamanha que a convergência das diretrizes do colesterol e seus impactos na prevenção cardiovascular serão amplamente discutidos durante o 46º Congresso da Sociedade de Cardiologia do Estado de São Paulo (SOCESP), que acontece de 4 a 6 de junho, em São Paulo, reunindo especialistas para debater como transformar as novas evidências científicas em estratégias concretas de redução do risco cardiovascular na população.