“As doenças cardíacas nas mulheres são frequentemente subdiagnosticadas, subtratadas e mal compreendidas”, diz a presidente do ACC
Roxana Mehran, presidente do American College of Cardiology, será uma das conferencistas internacionais do 46º Congresso da SOCESP e estará em São Paulo especialmente para participar do evento
Roxana Mehran em Congresso da SOCESP 2025
A cardiologista Roxana Mehran é uma das principais referências mundiais em cardiologia intervencionista e pesquisa cardiovascular e será conferencista do 46º Congresso da SOCESP. Nascida no Irã e radicada nos Estados Unidos, ela é professora na Icahn School of Medicine at Mount Sinai, em Nova York, onde também lidera centros de pesquisa clínica e programas voltados à saúde cardiovascular.
Reconhecida internacionalmente, Mehran construiu carreira marcada por estudos clínicos de grande impacto, desenvolvimento de diretrizes médicas e criação de escores de risco amplamente utilizados na prática cardiológica. Ela já liderou inúmeros estudos globais e publicou milhares de artigos científicos, sendo considerada uma das pesquisadoras mais influentes da área.
Além da atuação científica, destaca-se como uma das principais vozes na defesa da saúde cardiovascular da mulher, campo historicamente negligenciado. Ela também fundou iniciativas para ampliar a participação feminina na medicina e lidera projetos internacionais voltados a reduzir desigualdades no diagnóstico e tratamento de doenças cardíacas.
Em 2026, assumiu a presidência do American College of Cardiology (ACC), uma das mais importantes organizações médicas do mundo, reforçando seu papel de liderança global na área. Direto de Nova York, ela concedeu uma entrevista exclusiva ao jornalista da SOCESP, José Luchetti, onde falou sobre os avanços no tratamento do infarto, as estratégias terapêuticas antitrombóticas, a saúde cardiovascular da mulher e o aumento global da obesidade, do diabetes e das doenças metabólicas, aliado ao envelhecimento das populações.
Como uma referência global em saúde cardiovascular da mulher, como a pesquisa e o entendimento clínico das doenças cardíacas em mulheres evoluíram nos últimos anos? Quais são os achados mais importantes e os desafios que ainda permanecem nessa área?
Roxana Mehran: Houve um progresso importante nos últimos anos ao transformar a saúde cardiovascular da mulher de uma área negligenciada em uma prioridade central na medicina cardiovascular. Hoje reconhecemos melhor que as doenças cardíacas nas mulheres são frequentemente subdiagnosticadas, subtratadas e, muitas vezes, mal compreendidas. A pesquisa ajudou a definir diferenças importantes relacionadas ao sexo em fatores de risco, apresentação clínica, fisiopatologia e desfechos, deixando claro que a doença cardiovascular nas mulheres não pode ser abordada simplesmente como a mesma condição observada nos homens. Entre os avanços mais relevantes está o reconhecimento crescente de condições que afetam desproporcionalmente as mulheres, incluindo isquemia com artérias coronárias não obstrutivas, disfunção microvascular coronariana, dissecção coronariana espontânea e riscos cardiovasculares associados à gestação. Ainda assim, permanecem desafios importantes. As mulheres continuam sub-representadas em ensaios clínicos, o que limita a robustez das evidências que orientam o cuidado. Persistem desigualdades no acesso, diagnóstico tardio e lacunas no tratamento em muitos sistemas de saúde. Ainda há muito a ser feito para garantir que a ciência específica por sexo não seja tratada como um tema de nicho, mas como parte essencial de um cuidado cardiovascular de alta qualidade.
Na sua opinião, por que as doenças cardiovasculares continuam sendo a principal causa de morte no mundo, apesar dos avanços científicos significativos?
Roxana Mehran: As doenças cardiovasculares continuam sendo a principal causa de morte porque a carga de fatores de risco segue crescendo, muitas vezes em ritmo superior à nossa capacidade de controlá-los. Enfrentamos um aumento global da obesidade, do diabetes e das doenças metabólicas, aliado ao envelhecimento das populações. Ao mesmo tempo, há uma lacuna persistente entre a evidência científica e sua implementação na prática. Muitos pacientes não recebem terapias preventivas ideais, e o risco de longo prazo é frequentemente subestimado ou insuficientemente abordado após eventos agudos. Os avanços científicos têm sido substanciais, mas seu impacto depende da aplicação consistente. Reduzir essa lacuna, por meio da prevenção, da intervenção precoce e de um melhor manejo a longo prazo, é essencial para diminuir de forma significativa a mortalidade cardiovascular no mundo.
SOCESP: Sua palestra abordará o tema “Avanços no diagnóstico e nas estratégias terapêuticas para pacientes com Infarto Agudo do Miocárdio”. Quais as principais atualizações que pretende discutir no evento?
Roxana Mehran: Nos últimos anos, fizemos progressos importantes no aprimoramento de toda a linha de cuidado no infarto agudo do miocárdio, especialmente com a redução dos tempos porta-balão no IAM com supra de ST (STEMI) e a adoção mais ampla de tecnologias avançadas. Isso inclui diagnóstico mais precoce com biomarcadores de alta sensibilidade, maior uso de imagem intracoronária para otimizar a intervenção coronária percutânea (ICP) e estratégias mais individualizadas de terapia antitrombótica e suporte mecânico em pacientes de alto risco. No entanto, apesar desses avanços, a redução da mortalidade atingiu um platô. Para avançarmos, precisamos olhar além da fase aguda. A atenção tem se voltado cada vez mais para o risco residual após o infarto, especialmente os componentes trombóticos, inflamatórios e cardiometabólicos, que continuam a impulsionar eventos recorrentes. Isso reflete uma mudança mais ampla na cardiologia intervencionista, que deixa de ser uma especialidade focada principalmente na intervenção aguda e passa a incorporar a prevenção personalizada de longo prazo, um passo fundamental para melhorar os desfechos a longo prazo.
SOCESP: Sua segunda palestra terá como foco “Estratégias terapêuticas antitrombóticas em pacientes com alto risco de sangramento”. Quais são os principais pontos que os participantes podem esperar dessa sessão?
Roxana Mehran: O manejo de pacientes com alto risco de sangramento exige um equilíbrio cuidadoso entre proteção isquêmica e segurança. É importante destacar que o sangramento não é um evento benigno, ele tem impacto direto na mortalidade. Portanto, as decisões terapêuticas devem ser individualizadas, integrando fatores clínicos, anatômicos e procedimentais. O conceito de uma abordagem “tamanho único” já não é adequado; em vez disso, precisamos de uma estratégia centrada no paciente, que ajuste tanto a intensidade quanto a duração da terapia. Evidências recentes apoiam durações mais curtas de terapia antiplaquetária dupla, com transição mais precoce para estratégias com antiplaquetário único em pacientes selecionados, sem comprometer os desfechos isquêmicos. Diretrizes americanas recentes já reconhecem essa mudança de paradigma, incluindo recomendação de Classe I para monoterapia com ticagrelor em pacientes selecionados com síndrome coronariana aguda (SCA), enquanto as diretrizes europeias também incorporam a monoterapia antiplaquetária como estratégia de redução de sangramento. Esta sessão abordará o impacto clínico do sangramento, o equilíbrio com o risco isquêmico e como as evidências atuais podem orientar estratégias antitrombóticas mais individualizadas na prática.
SOCESP: Qual é a importância de participar do Congresso da SOCESP?
Roxana Mehran: Participar do Congresso da SOCESP é sempre uma excelente oportunidade para interagir com colegas e amigos do Brasil, que lideram avanços importantes no cuidado cardiovascular. Com um programa científico robusto e ampla participação, a SOCESP representa uma plataforma fundamental para fortalecer conexões nas Américas. Esse tipo de colaboração é essencial para enfrentar desafios comuns, impulsionar a pesquisa e, em última análise, melhorar os desfechos dos pacientes em todo o mundo.